Underground

Ontem dei a descarga em mim mesma. Fiquei horas, talvez dias, rondando a imundice e pensando se deveria me atirar ao submundo de uma vez. Me exteriorizar em cheiros e dejetos. Desci pelo cano rápido, com os olhos fechados, imaginando que não conseguiria voltar se quisesse. Mas aqui em baixo é real. A realidade nua e crua, sem neutralizadores de odores, sem tinta fresca para cobrir as rachaduras.Me sinto em casa, com meu interior me abraçando em forma sólida e repugnante. Como mergulhar no líquido denso de tudo que é rejeitado e jogado nas bocas de lobo. Esse esgoto me acolhe com tudo que eu sempre evitei. A correnteza forte das galerias trazem  tudo o que desprezei durante anos, tudo que fugi por medo de falhar. Que satisfação melancólica agradável. O grotesco presente como sempre, mas sem tentar manter as aparências. O concreto sujo e a decadência que o ser humano esconde em baixo de avenidas e semáforos. Eu fico imaginando quão perfeito seria lavar isso tudo de verdade, enfrentar e tocar no que mais me enoja em mim. Mas ainda me falta o desinfetante desse ambiente. Talvez seja a coragem, talvez o conformismo. Talvez eu nunca descubra e me veja pelo resto da vida boiando nessa correnteza escura e tóxica. Provavelmente todas essas toxinas me façam perder a sanidade em algum tempo. Como se alguém drogasse sua água potável. Penso que daqui um tempo eu canse de pensar em tudo o tempo todo. Porque essa falta de luz e essas galerias todas iguais não são capazes de me distrair o pensamento, estou perdendo-me mais e mais em devaneios. Isso é um inconveniente desagradável, mas esperado. Quando se atira em tudo que você mais temia é normal perder a cabeça. Mas convenhamos que toda aquela capa branca não me deteria a reflexão necessária durante muito tempo. Então estou aqui e não me arrependo. Rasguei de uma vez essa capa que me desgastava tanto limpar e passar todos os dias. Então o plano é boiar e afundar por aqui mesmo, até conseguir fazer tudo isso brilhar como nunca, se isso realmente for possível. Acredito que se chamaria felicidade afinal. Senão aqui permanecerei, bebendo as verdades que me consomem por dentro, mas me libertam.  Me familiarizando com os seres mais escrotos, esperando as toxinas acabarem com meus neurônios até não sobrar nada importante o bastante capaz de me ferir.

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